Quem você se tornou longe de casa?
- tdcriativo
- há 6 dias
- 4 min de leitura

Instagram: https://www.instagram.com/ariaenergyhealing/
Existe uma armadilha silenciosa na experiência da imigração.
Ela não acontece no aeroporto.
Não acontece quando você se despede da família.
Nem quando percebe que perdeu aniversários, casamentos ou momentos importantes de
quem ficou para trás.
Ela acontece aos poucos.
Tão devagar que muitas vezes passa despercebida.
Porque emigrar não significa apenas mudar de país.
Significa perder, de forma inevitável, uma parte do sistema que regulava a sua vida
emocional. E isso é algo que poucos imigrantes compreendem quando chegam.
Quando vivíamos perto da família, dos amigos ou das pessoas que nos conheciam
profundamente, existia uma rede invisível sustentando o nosso equilíbrio emocional.
Uma conversa espontânea. Um almoço de domingo. Uma visita inesperada. Um abraço
sem precisar marcar na agenda.
Tudo isso ajudava o nosso sistema nervoso a lembrar que estávamos seguros.
Quando emigramos, essa rede desaparece.
E, por mais que construamos novas amizades, existe uma verdade que poucos gostam de
admitir:
Uma parte do isolamento é inevitável. Não importa o quão sociável você seja. Não importa
quantos amigos faça. Não importa o quanto ame o país onde vive.
Existe um período, que para algumas pessoas dura meses e para outros anos, em que a
sensação de não pertencer completamente a lugar nenhum faz parte da jornada.
Você já não vive a vida que deixou para trás. Mas também ainda não se sente
completamente parte da nova realidade.
É uma terra de ninguém emocional.
E é exatamente nesse espaço que começam a surgir algumas das maiores vulnerabilidades
do imigrante.
A primeira delas é a projeção.
Sem perceber, começamos a esperar que novas relações preencham espaços que antes
eram ocupados por uma comunidade inteira.
Esperamos que um parceiro seja melhor amigo, terapeuta, família e porto seguro ao mesmo
tempo.
Esperamos que amizades recentes tenham a profundidade de décadas.
Esperamos que pessoas que conhecemos há poucos meses entendam dores construídas
ao longo de uma vida inteira.
E quando isso não acontece, surge a sensação de abandono.
Mas muitas vezes não estamos sofrendo pela relação em si. Estamos sofrendo pela
ausência da rede que existia antes dela.
O problema é que existe um segundo fator que torna tudo isso ainda mais intenso. E ele
raramente recebe a atenção que merece.
O corpo. Especialmente quando falamos de atividade física.
Muitos imigrantes, principalmente aqueles que vieram de países ensolarados, passam por
uma mudança drástica de estilo de vida.
Menos tempo ao ar livre. Menos exposição ao sol. Menos movimento. Menos caminhadas
espontâneas. Menos encontros presenciais. Menos contacto humano.
E sem perceber, entram num ciclo perigoso.
Sentem-se mais isolados.
Saem menos. Movem-se menos.
E quanto menos se movem, pior se sentem.
O que poucas pessoas sabem é que o movimento não serve apenas para emagrecer ou
melhorar a saúde física.
O movimento é uma ferramenta de regulação emocional.
Quando caminhamos, corremos, treinamos ou simplesmente colocamos o corpo em
movimento, ajudamos o sistema nervoso a processar stress, ansiedade, frustração e
tristeza.
A atividade física atua como uma espécie de válvula de escape biológica.
Ela reduz níveis de stress. Melhora o humor. Favorece o sono. Aumenta a sensação de
energia.
E, talvez mais importante para o imigrante, cria uma sensação interna de estabilidade.
Porque existe algo que ninguém nos conta sobre a imigração: Nem toda saudade é
emocional.
Às vezes o que estamos interpretando como saudade é exaustão. Às vezes o que parece
tristeza profunda é a falta de luz solar. Às vezes o que parece uma crise existencial é um
sistema nervoso que está há meses sem descarregar tensão acumulada.
E não, isso não significa que a dor da distância não seja real.
Ela é.
A saudade existe. As perdas existem. Os aniversários perdidos existem. As ausências
existem.
Mas quando o corpo está esgotado, sedentário e privado de luz natural, tudo fica maior.
A rejeição parece mais dolorosa.
A solidão parece mais profunda.
A ansiedade parece mais intensa.
Os conflitos parecem mais graves.
As despedidas parecem mais definitivas.
Por isso, um dos maiores erros que um imigrante pode cometer é acreditar que todos os
seus desafios emocionais serão resolvidos apenas através da mente.
A análise é essencial, mas não nutre as necessidades do corpo físico.
Na grande maioria das vezes, a única necessidade, é de mais movimento.
Mais caminhada. Mais natureza. Mais ar fresco. Mais contacto com o mundo físico.
Principalmente durante os longos meses de inverno.
Porque o inverno não afeta apenas o humor. Ele afeta a percepção que temos da vida.
Para alguém que cresceu rodeado de sol, os meses consecutivos de céu cinzento podem
reduzir a energia, motivação e capacidade emocional de lidar com desafios.
E quando somamos isso ao isolamento inevitável da imigração, os efeitos tornam-se ainda
mais evidentes.
É por isso que criar uma rotina de movimento não é luxo. Não é vaidade. Não é apenas
uma questão de saúde.
É uma estratégia de sobrevivência emocional.
É uma forma de dizer ao sistema nervoso: "Estamos longe de casa, mas estamos
seguros."
Talvez a maior lição da imigração seja perceber que pertencimento não nasce apenas das
pessoas à nossa volta.
Nasce também da relação que construímos com nós mesmos.
E essa relação não é criada apenas através dos pensamentos.
Ela é criada através das pequenas escolhas diárias que ajudam o corpo, a mente e o
coração a caminhar juntos.
Então, da próxima vez que sentir que a saudade está esmagando o peito, faça uma
pergunta simples antes de concluir que algo está errado:
Você está realmente com saudade de casa...
Ou faz semanas que o seu corpo está implorando para sair da cadeira, ver a luz do dia e
lembrar ao seu sistema nervoso que ainda existe vida acontecendo lá fora?
Com amor,
Aria Milioni



Comentários